Recebi da Fernanda o Questionário de Proust para responder. Assim como ela, me diverti respondendo-o. Para quem quiser conferir, aí está:
1. Qual é a sua maior qualidade? Saber ouvir, procurar me colocar no lugar das pessoas quando estou diante de um conflito.
2. E seu maior defeito? Vale falar aqueles defeitos clichês de entrevista de emprego, tipo:”sou muito perfeccionista”? Hahahaha! Bom, um defeito ruim que me afasta de muitos amigos é a timidez, ela faz-me afastar de pessoas que gosto quando acho que fui magoada. Na verdade é um tremendo complexo de dondoca...
3. A característica mais importante em um homem? O caráter.
4. E em uma mulher? O Amor, mas não no sentido atual, em que esta palavra foi desvirtuada e não possui mais seu sentido original. Não esse amor romântico, sinônimo de possessão, orgulho, amor que barganha. Mas o Amor no sentido de doação, de não-interesse, de abnegação, generosidade.
5. O que você mais aprecia nos seus amigos? A intimidade de poder falar tudo o que eu penso sem me preocupar em ser mal interpretada.
6. Sua atividade favorita é... Ler é uma delas, mas se for definir todas em uma só seria aprender.
7. Qual a sua idéia de felicidade? É ser dona de mim, isto é, ter a convicção de que só depende de mim a postura como encaro a vida.
8. E o que seria a maior das tragédias?Ai, isto eu não falo porque tenho a superstição de que posso atrair.
9. Quem você gostaria de ser, se não fosse você mesmo?Como poderia saber? É difícil conhecer as pessoas, se são ou não felizes e que vantagem eu teria em ser essa outra pessoa que eu não conheço a fundo.
10. E onde gostaria de viver. Em Minas, como boa mineira que sou.
11. Qual sua cor favorita? Não tenho uma, depende do momento e ocasião.
12. Uma flor: Flor de maio.
13. Um pássaro: Canarinho, desde que fora da gaiola, pois odeio passarinho preso.
14. Seus autores preferidos: Mario Vargas Lhosa, Milan Kundera, Ernest Hemingway.
15. Os poetas que mais gosta? Carlos Drummond de Andrade, Fernando Pessoa.
16. Quem são seus heróis de ficção? Esta foi uma pergunta que eu não sabia responder de pronto: Volverine, de X-Men.
17. E as heroínas na ficção? Não sei se posso enquadrá-la como heroína: é Morgana, da lenda do Rei Artur.
18. Seu compositor favorito é…Gosto de Caetano, Chico Buarque, Djavan, Milton Nascimento. Não tenho um favorito.
19. E os pintores que você mais curte? Sou mais ligada em escultura que em pintura, por isto vou listar primeiro meus escultores: Rodin e Giacometti. Na pintura, Velásquez e Gustav Klimt.
20. Quem são suas heroínas na vida real?São todas as mulheres que trabalham duro pra sustentar os filhos, sofrem preconceitos e todo tipo de injustiça, e nem por isto perdem a coragem e a dignidade diante da vida.
21. E quem são seus heróis? São todos aqueles que dedicam todo ou parte de seu tempo para uma causa humanitária, sem almejar nada em troca (porque o que não falta hoje em dia é gente boazinha cheia de segundas intenções).
22. Qual sua palavra favorita? Nos últimos tempos, é SABEDORIA.
23. O que você mais detesta? É violência contra crianças.
24. Quais são os personagens históricos que você mais despreza? Em primeiro lugar os ditadores e em segundo os populistas.
25. Quais dons naturais você gostaria de possuir?Uma voz maravilhosa, acho que isso estaria de bom tamanho, rsrsrs.
26. Como você gostaria de morrer? Naturalmente, sem conseqüência de doença ou acidente.
27. Qual seu atual estado de espírito? De questionamento e contemplação diante da vida.
28. Que defeito é mais fácil perdoar? Os que já identifiquei em mim mesma.
29. Qual é o lema da sua vida? É a frase do Oráculo de Delfos: “Conheça-te a ti mesmo”.
Queria convidar a Vivien e a Thelma pra responder o Questionário.
Encontrei no blog das Mineiras, Uai! as perguntas respondidas pelo escritor francês que acabou batizando o Questionário. Vale a pena conferir:
"Proust respondeu ao mesmo questionário duas vezes na vida, a primeira quando era menino, aos treze anos de idade, e outra, já um rapaz de vinte anos, quando servia o exército francês. As respostas do gênio da literatura francesa tornaram o modelo de questionário tão famoso que virou uma espécie de padrão até de entrevistas jornalísticas! Hoje, o pouco que se sabe da vida pessoal de Proust foi praticamente “deduzido” dos questionários respondidos, reencontrados pelo filho da prima Antoinette, e publicados em 1924. Através do questionário, pode-se conhecer bastante da personalidade e das aspirações do escritor."
Respostas do Proust aos 13 anos
What do you regard as the lowest depth of misery?
To be separated from Mama
Where would you like to live?
In the country of the Ideal, or, rather, of my ideal
What is your idea of earthly happiness?
To live in contact with those I love, with the beauties of nature, with a quantity of books and music, and to have, within easy distance, a French theater
To what faults do you feel most indulgent?
To a life deprived of the works of genius
Who are your favorite heroes of fiction?
Those of romance and poetry, those who are the expression of an ideal rather than an imitation of the real
Who are your favorite characters in history?
A mixture of Socrates, Pericles, Mahomet, Pliny the Younger and Augustin Thierry
Who are your favorite heroines in real life?
A woman of genius leading an ordinary life
Who are your favorite heroines of fiction?
Those who are more than women without ceasing to be womanly; everything that is tender, poetic, pure and in every way beautiful
Your favorite painter?
Meissonier
Your favorite musician?
Mozart
The quality you most admire in a man?
Intelligence, moral sense
The quality you most admire in a woman?
Gentleness, naturalness, intelligence
Your favorite virtue?
All virtues that are not limited to a sect: the universal virtues
Your favorite occupation?
Reading, dreaming, and writing verse
Who would you have liked to be?
Since the question does not arise, I prefer not to answer it. All the same, I should very much have liked to be Pliny the Younger.
Respostas do Proust aos 20 anos
Your most marked characteristic?
A craving to be loved, or, to be more precise, to be caressed and spoiled rather than to be admired
The quality you most like in a man?
Feminine charm
The quality you most like in a woman?
A man's virtues, and frankness in friendship
What do you most value in your friends?
Tenderness - provided they possess a physical charm which makes their tenderness worth having
What is your principle defect?
Lack of understanding; weakness of will
What is your favorite occupation?
Loving
What is your dream of happiness?
Not, I fear, a very elevated one. I really haven't the courage to say what it is, and if I did I should probably destroy it by the mere fact of putting it into words.
What to your mind would be the greatest of misfortunes?
Never to have known my mother or my grandmother
What would you like to be?
Myself - as those whom I admire would like me to be
In what country would you like to live?
One where certain things that I want would be realized - and where feelings of tenderness would always be reciprocated. [Proust's underlining]
What is your favorite color?
Beauty lies not in colors but in thier harmony
What is your favorite flower?
Hers - but apart from that, all
What is your favorite bird?
The swallow
Who are your favorite prose writers?
At the moment, Anatole France and Pierre Loti
Who are your favorite poets?
Baudelaire and Alfred de Vigny
Who is your favorite hero of fiction?
Hamlet
Who are your favorite heroines of fiction?
Phedre (crossed out) Berenice
Who are your favorite composers?
Beethoven, Wagner, Schumann
Who are your favorite painters?
Leonardo da Vinci, Rembrandt
Who are your heroes in real life?
Monsieur Darlu, Monsieur Boutroux (professors)
Who are your favorite heroines of history?
Cleopatra
What are your favorite names?
I only have one at a time
What is it you most dislike?
My own worst qualities
What historical figures do you most despise?
I am not sufficiently educated to say
What event in military history do you most admire?
My own enlistment as a volunteer!
What reform do you most admire?
(no response)
What natural gift would you most like to possess?
Will power and irresistible charm
How would you like to die?
A better man than I am, and much beloved
What is your present state of mind?
Annoyance at having to think about myself in order to answer these questions
To what faults do you feel most indulgent?
Those that I understand
What is your motto?
I prefer not to say, for fear it might bring me bad luck.
24 maio 2007
Questionário de Proust
13 maio 2007
Quando não estou blogando...
Por indicação da Babs (e bem atrasada na brincadeira) estou listando o que faço de diferente quando não estou blogando...
Bem, como minha vida é mais básica que exótica, vou listar o que eu faço por prazer, ou hábito, mesmo que não seja assim, tão diferente:
1) Ficar matutando. Óbvio que todo mundo está sempre pensando em alguma coisa o tempo todo, mas eu sou uma "cismadeira de carteirinha". E 90% das vezes estou pensando sobre, como diria egoisticamente Marisa Monte, meu universo particular. Foi de tanto "cismar" que eu desenvolvi o 3º hábito desta lista. Antes dele, vou dizer a segunda coisa que eu mais faço, além de pensar, pensar, pensar...
2) Ler. Leio tudo o que meus olhos captam como código linguístico. A começar por livros ( os últimos que li foram O caçador de Pipas e O Historiador). Revistas, são de todos os tipos: tradicionais, alternativas, de decoração, viagem, notícias, moda, fofoca, filosofia, gibi. Se estou no banheiro, leio as fórmulas de todos os xampus, cremes, cosméticos (pelo menos tenho a desculpa de ser farmacêutica, rsrs). Se estou esperando o Gu dentro do carro e não tem nenhuma revista ou livro por lá...ataco o manual do carro mesmo. É meio doentio.
3) Estudar filosofia. A essas alturas quem não me conhece deve estar me achando uma chata, né? O consolo é que eu sou caladinha pra essas coisas, não acho que eu devo compartilhar meus devaneios com as outras pessoas, só se me pedirem!
4) Me aventurar na cozinha. Definitivamente não tenho o dom de cozinhar, mas tem alguns pratos com os quais eu engano bem. Algumas coisas são realmente difíceis de fazer, e aqui em casa o chef é o Gustavo. Segundo ele, pra eu acertar a receita de pé de moleque, ele sofreu como cobaia nas dez primeiras vezes (exagero, mas confesso que errei feio nas três primeiras).
5) Brincar com meu filho. Quando chego em casa do trabalho, antes de qualquer lazer ou obrigação, vou brincar com ele. De empurrar no balanço, brincar na caixa de areia, montar trenzinho, contar histórias. Ou simplesmente assistir desenho.
6) Assistir filmes com o Gustavo. Esse é um programa que eu adoro! Depois do nascimento do Davi, tivemos que trocar o cinema pela locadora. Mas sabe de uma coisa: é muito bom assistir um filme bem agarradinha com ele no sofá.
Bom, esta é minha pequena lista atualizada. Algumas coisas que eu fazia antes de ter o Davi, estão cada vez mais difíceis de retomar. Uma delas é o Yôga que eu adorava fazer. Outra que eu não faço mais, mas foi ótimo parar, é assistir TV!
Gostaria de passar esta brincadeira para:
Fernanda
Mel
27 abril 2007
Sobreviveríamos sem humor?
O humor é uma arma para se usar contra as hipocrisias do cotidiano.
O humor nos resgata um sopro de dignidade frente à nossa miserável condição humana. Essa condição de seres ignorantes tentando entender qual o sentido da vida.
Nunca havia lido ou visto algo relacionado à piada na religião, até me deparar com esta foto de uma gárgula presente em uma Catedral Alemã. A arquitetura gótica e a data da construção (séc. XIV) me levaram a pensar sobre como o humor era tratado na Idade Média. Pesquisando o assunto, percebi o quanto a maioria das pessoas são ignorantes em relação a esta época histórica, por imaginá-la um período desprovido de humor. Descobri que, muito pelo contrário, até pela influência do cristianismo, era um tempo onde havia um grande palco para o riso. O bom humor foi incentivado por ninguém menos que São Tomás de Aquino, em seu "Tratado sobre o Brincar", no qual ele trata o "Brincar" como uma virtude, necessária ao descanso da alma. O Tratado em si é uma análise dos escritos de Aristóteles em "Ética a Nicômaco", e na verdade São Tomás pouco acrescenta aos dizeres do filósofo grego, que também se interessou pelo tema. Voltando à foto, gostaria de ser historiadora para tentar entender o contexto que fez com que esta gárgula em posição constrangedora fosse escolhida para enfeitar o telhado de uma catedral famosa. Mas devido aos meus limitados conhecimentos de história, fico com as suposições propostas pela REVISTA MONDANA, as quais podemos ler na própria foto.
**Revista Mondana: Publicação sazonal da Editora Idéias Bizarras, de Belo Horizonte (infelizmente, não pude saber se a revista ainda existe, eu acho que foi extinta). Esse único exemplar - do verão de 2006 - que li de cabo a rabo, achei espetacular.
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Em tempo, a transcrição da revista:
"Uma das gárgulas mais controversas de que se tem notícia está na Catedral de Freiburg Münster, na Alemanha. Ao invés de cuspir água pela boca, a escultura proporciona o escoamento pelo ânus. A peculiaridade nos faz pensar: (1) a gárgula estaria nesta posição comprometedora com a intensão de expulsar de forma mais explícita o "mal" para fora da igreja? ou (2) seria uma vingança do escultor pelo atraso no pagamento dos serviços?"
20 abril 2007
Tempo
Hoje é sexta-feira, e assim como em todas elas, além da agradável perspectiva do final de semana, chega-me a conhecida sensação de que a semana se passou em um flash.
Há muito o Tempo tornou-se para mim, literalmente, a encarnação do deus Cronos, aquele que dá a vida a seus filhos para em seguinda devorá-los avidamente.
É fato que principalmente com as teorias de Einsten, o Tempo deixou de ser referido apenas como uma grandeza exata e passou também a ser compreendido em sua dimensão psicológica, ou relativa.Outro dia o filho de uma amiga perguntou a ela: “Mãe, é impressão minha ou o tempo aqui na fazenda passa muito mais devagar?” Minha amiga, que é apicultora, respondeu, paradoxalmente, que o tempo lá passava infinitamente mais rápido que na cidade, devido às suas tantas atividades.
Dizem que esta sensação de que a semana, o mês e até o ano acabaram e a gente não os “viu” passar é uma característica de épocas (ou eras) difíceis.
Confesso que sofro não só deste mal relacionado ao tempo, mas de outro ainda pior: o de ficar incomodada, sentir até um certo peso na consciência quando paro para assistir à TV ou ficar à toa mesmo, deitada numa rede sem fazer nada. Sinto mesmo que estou perdendo um bem precioso, e aí começo a relacionar em minha mente tudo que poderia estar fazendo para ocupar melhor este tempo.
Ontem, cheguei em casa e o Davi, que estava dormindo, acordou chorando. Reclamava de dor na garganta, dor no olho, dor na barriga. Chegou a vomitar. Eu e o Gustavo ficamos muito assustados inicialmente, mas após alguns exames e conversas com ele, intuí que aquilo tudo era mais carência do que doença propriamente dita. Então o peguei pela mão e propus que fôssemos à cozinha, onde ele me ajudaria a preparar uma sopa. Minha sopa (aliás, a receita é de minha mãe) é daquelas que inunda a casa inteira com um cheiro muito bom, e por isto mesmo eu uso quando quero animar os ânimos de alguém. Como previ, o resultado foi perfeito. Ao final do jantar, Davi estava rindo, correndo e brincando, e eu muito aliviada. Há algumas semanas estou com compromissos à noite, e não fico todas elas com ele. Creio que isto disparou um mecanismo de defesa em seu corpo. Hoje o Gustavo o levou ao médico pela manhã, só por via das dúvidas, e realmente ele não tinha nada.
E eu, aqui, desejando ter mais tempo para passar com Davi, com meu marido, mais tempo para mim, para o blog... e chego à conclusão de como é inútil esta correria de todo dia. E aí começam a brotar em mim mil indagações metafísicas: afinal, pra que tudo isto? O que irá representar isto para minha existência? Qual é a utilidade de todo este stress?
Então eu resolvi que iria por um ponto final neste dilema recorrente. E o solucionei, apenas colocando para cada coisa importante em minha vida o peso que cada uma delas tem para mim e a importância perene que têm em minha vida. E isto me fez descobrir que, sem abrir mão de meus compromissos profissionais, pessoais, maternais, vou conseguir fazer também muitas outras coisas às quais eu não me permitia, sem medo de sentir aquela sensação incômoda de estar gastando mal esse meu precioso bem.
Imagem: Cronos devorando um de seus filhos (Goya)
10 abril 2007
Blogar é perigoso
Piromaníaca da internet é condenada a dez anos de prisão em Tóquio
(Japão / abril 2007)
Egito confirma pena de quatro anos para blogueiro
Adolescente "descoberto" em blog confessa crime
(EUA)
Aposentado é acusado de difamar ex-mulher juíza pela internet
(Brasil)
Iraniano ficará 14 anos na prisão por publicações feitas em blog
É um fato quase unânime de que todo blogueiro é, no fundo, um exibicionista...
por transformar um Diário (antes um objeto íntimo, onde se registravam segredos inconfessáveis) em, literalmente, um Livro Aberto, no qual todos podem bisbilhotar, invadir e palpitar.
Bom, dizem que o ser humano não nasceu para guardar segredos. Mas é incrível como tem gente que não consegue mesmo nem segurar a boca (ou melhor, o teclado) quando comete um crime.
Como os casos acima descritos, há outros tantos crimes (até de assassinatos) cujas provas foram descobertas em blogs, isto é, pela confissão dos autores, ou por uma descrição tão minuciosa de detalhes que denunciava o culpado.
O Ser Humano é mesmo surpreendente...
Esta necessidade que temos de expor as coisas, de não conseguir se segurar...
Eu sempre fui meio o oposto disto. Sou boa pra guardar segredos. Até de mim mesma, e aí isso já é ruim. Esta inibição nascia, com toda certeza, de uma insegurança e medo de críticas muito acentuados. Mas eu sempre digo que o bom de se amadurecer é que você descobre que não é preciso, e é na verdade impossível, agradar a todos.
Por isto adoro os blogs e os blogueiros que conheço, sem nem mesmo nunca ter visto muitas das caras por trás das almas que se mostram fugazmente nas linhas e entrelinhas dos posts. Podem não ser suas almas completas, mas é uma parte delas, aquela que quis se mostrar.
Há, com certeza, milhares de blogs falsos por aí... Mas eu acredito sinceramente nos blogueiros que visito. Concordo, discordo, fico neutra. Desenvolvo simpatia, antipatia, me emociono, dou gargalhadas, desejo ser amiga (o) íntima de alguns e deixo de visitar outros por completa falta de afinidades. E desenvolvo uma relação com todos, que pode ser até unilateral, mas é inexorável.
Fico com a consciência pesada se não tenho tempo de postar (como na semana passada), nem de visitar alguns blogs que eu adoro.
Ops, em um post sobre blogueiros criminosos, acabei confessando várias facetas pessoais. É bom parar por aqui, antes que fique muito comprometedor!
30 março 2007
Uma caipira na cidade grande
Adoro ir a São Paulo. Nas poucas oportunidades que tenho de fazê-lo, geralmente em ocasiões profissionais, tento encaixar na agenda pelo menos uns 2 programas culturais, como um teatro ou uma exposição.
Lá, quando ponho os pezinhos pra fora do avião já me sinto diferente. Eu não enxergo o trânsito ruim, a poluição, a correria, nada disso. O que passa brilhando pelos meus olhos são a modernidade, a grandiosidade, a imponência, o poder dessa metrópole. É provável que os paulistanos enxerguem mais o stress do dia a dia do que as infinitas possibilidades de diversão e cultura que eu vejo... bem, a gente sempre deseja o que não tem, não é?
Minha última passagem por lá foi exclusivamente turística, para ver o show do Roger Waters. Na saída do aeroporto, a mesma sensação de sempre...
Mas houve um momento dentro das menos de 24 horas que eu permaneci na cidade em que meu olhar sofreu uma drástica mudança. Tudo começou ainda no hotel, minutos antes de sairmos para o show. Vi que algumas pessoas que contrataram a agência de turismo começaram a reclamar que não havia ingressos suficientes. Algumas pessoas haviam pagado por um lugar mais próximo ao palco, mas receberam ingressos dois ou três setores atrás. Um médico com sua filha adolescente tinham recebido ingressos para cadeiras em lados completamente opostos, fora do que havia sido combinado.
Já na entrada do Morumbi, reparei na malandragem de alguns cambistas, que paravam a gente pra tentar trocar ingressos. Um deles propôs que trocássemos os nossos ingressos + R$50,00 por cadeiras no Setor Laranja, que eram melhores. Mas como me lembrava da posição dos setores no mapa, sabia que ele estava blefando, já que as cadeiras laranjas eram localizadas na arquibancada, bem longe do palco, e as nossas no gramado.
Já que não tinha idéia de como iria estar a situação dentro do estádio, o médico aceitou trocar seus dois ingressos de cadeiras no gramado e dar R$100,00 a um segurança em troca de um lugar onde ele pudesse ficar próximo a sua filha. O Segurança imediatamente entregou-lhes pulseirinhas de identificação, conduzindo-os pelos corredores internos do estádio até o mesmo setor onde eles tinham as cadeiras. Só que eles teriam que ficar em pé todo o show. Todo o corredor entre as cadeiras do gramado ficou repleto de pessoas em pé que ninguém sabia de onde haviam vindo, já que foram vendidos apenas ingressos para lugares sentados. Percebi que era um esquema muito organizado dos seguranças para lucrar centenas de ingressos “não oficiais”.
Lá fora, apesar da noite linda e da previsão do tempo ter indicado ausência de chuvas, muitas pessoas vendiam capas de chuva para o público. Quando se atravessava o portão de acesso ao campo, havia vários jovens distribuindo gratuitamente as mesmíssimas capas.
Dentro do estádio, a venda de bebidas alcoólicas estava proibida. Mas havia um sujeito parado na ponta do gramado vendendo, despreocupado, cada latinha de cerveja (quente) a R$7,00.
Todo este comércio paralelo e quase sempre ilícito me saltou aos olhos.
De volta pra casa, em meus pensamentos não havia a civilização, mas a selva. E nesta Selva de Pedra, cada criatura se defende como pode e com as armas que tem.
25 março 2007
22 março 2007
O dia em que Platão defendeu Sabrina Sato
_Estamos aqui, diretamente de um Centro Espírita, onde uma entidade auto denominada “Platão” incorporou-se em um cidadão comum. Esta entidade apossou-se do corpo do pobre sujeito há cerca de um mês, e desde então tem-se proposto a explicar, utilizando a dialética platônica, vários temas de interesse do cotidiano.
_Hoje ele irá falar sobre o preconceito em relação às loiras burras. Foi convidada para participar do diálogo filosófico a repórter Glória Maria, do Fantástico.
Eis que se inicia o diálogo...
G.M: _ Boa Noite! Sr... Platão...er.. antes de entrarmos no tema polêmico das loiras burras, eu gostaria de confirmar... Você é, realmente, o espírito do filósofo Platão, morto há quase 2500 anos??
P.: Minha cara, se tu duvidas sobre a pessoa que eu represento, que diferença irá fazer eu mesmo lhe responder que sim ou que não?
G. M.: Er... acho que não teria sentido esta pergunta... Mas, por que então você, cujas obras são a base do sistema político moderno, deu-se ao trabalho de sair do seu descanso eterno para falar sobre um tema tão popular quanto esse?...
P.: Qual seriam, acaso, as preferências de debates de noventa e nove por cento da população atual? Dirias tu que são temas elevados, repletos das grandes questões da humanidade, ou seriam temas desprovidos de importância filosófica?
G.M.: A segunda opção, com toda certeza...
P.: E o que tu mesma propuzeste, ao idealizar o quadro “ser ou não ser”, no programa que apresenta? Acaso não querias aproximar os ignorantes dos grandes pensadores, tratando temas cotidianos?
G.M.: Certamente era isto que eu desejava...
P.: Então, por que não seria correto eu tratar um tema de grande interesse popular para difundir minha obra, tão esquecida, a um maior número de pessoas?
G. M.: Tem toda razão. Mas de que forma poderíamos relacionar sua obra com as loiras burras?
P.: Utilizando, por exemplo, meu conceito de Justiça. Tu, certamente o conheces...
G. M.: Er...desculpe! Gente, alguém pode me ajudar... Ah, “Dar a cada um o que lhe é de direito, conforme sua natureza e segundo sua necessidade.”
P.: E, partindo-se deste princípio, qual seria a natureza de uma loira burra?
G.M.: Por favor, os homens da platéia, podem responder?
Platéia: Linda, Gostosa, Peituda...
P.: Acaso alguém pensaria também em outras características, como: exímia em dedução de fórmulas matemáticas, analista econômica, ou prêmio Nobel de Física?
Todos: Hahahahaha...
Platão: Pois bem, porque quereis então que as tais loiras gostosas sejam algo além de sua própria natureza, o que já o fazem com bastante propriedade?
G. M.: Mas Platão, você não acha um absurdo uma mulher pública, como por exemplo, uma das mais recentes loiras: a Sabrina Sato, que ao ser interrogada por um repórter sobre se a mesma era realmente burra ou apenas fazia tipo, ter respondido que “Sim, sou burra mesmo. E tenho ganhado um bom dinheiro com isto!”. Você não acha que isto seria uma coisa condenável, um mau exemplo?
P.: Minha cara Glória, acaso cobra-se dos grandes intelectuais um ideal de beleza física? Fazeis vós piadas a respeito do cabelo horrível daquele matemático, ou rides da flacidez muscular daquele premio Nobel de Física?
G.M. (pasma): Creio que não...
P.: Pois creio que por analogia também não poderíamos cobrar das loiras o que não é nem sua natureza nem sua necessidade.
G.M.: Olha, confesso que estou perplexa...
P.: Agora, com sua licença, retirar-me-ei. Voltarei mais tarde, conforme for o andamento de meus esforços póstumos para com a humanidade.
O moribundo sujeito estremece e cai, adormecido.
Glória Maria esquece o comentário final que havia preparado pra fechar o Diálogo- Entrevista.
Diante de seu mutismo, o câmera-man fecha a cena e a equipe de T.V. entra com os comerciais.
16 março 2007
Você tem cheiro de quê?
_ De flor, na verdade, violeta...
_ Tem cheiro de carro novo, não, não, é de couro!
_ Se perceberem com cuidado irão notar especiarias, com forte presença de pimenta-do-reino.
_ Coco queimado...
_ Uma leve lembrança de extrato balsâmico, verniz...
O olfato é um sentido fascinante, que a meu ver tem tido seus encantos subjugados e até mesmo desprezados por boa parte das pessoas. Costumo divagar sobre isto, imaginando que nossos ancestrais deveriam possuir um olfato mais potente e ativo, obviamente utilizado como instrumento de preservação da espécie: identificar animais e pessoas em ambientes de pouca visibilidade, reconhecer lugares, identificar ervas medicinais e venenos quando os meios visuais já não o permitiam...
Hoje perdemos um pouco esta ferramenta, o mundo ficou muito visual... Lembro-me de uma viagem aos EUA, quando me marcou o fato das frutas possuírem um visual belíssimo, perfeito, mas com total ausência de aroma e cujo gosto era decepcionante.
Um cheiro possui a capacidade mágica de nos transportar em uma máquina do tempo até uma lembrança de infância, um lugar distante, um amor perdido...
Há algumas situações em que podemos explorar mais o olfato, uma delas é a gravidez. Certamente os enjôos que a gente sente têm relação direta com a potencialização desse sentido. Lembro-me que eu me assustava com o “poder” de conseguir adivinhar quem havia entrado no ônibus da empresa que nos levava ao trabalho, apenas sentindo o cheiro das pessoas.
Uma vez li sobre uma pesquisa em que vários representantes do sexo masculino, de diferentes biotipos, eram postos a suarem suas camisetas em uma longa sessão de bicicleta ergométrica. Então estas camisas “perfumadas” eram colocadas à avaliação de um grupo de mulheres que deveriam escolher, apenas pelo cheiro, qual seria o melhor parceiro. A pesquisa relatava que a grande parte havia escolhido a camisa do Macho Y (o mais alto e mais forte do grupo). Avaliei a pesquisa como cômica, além de questionar o reducionismo com que se concluía que o Macho Y levava vantagem sobre os demais (?!?!).
Mas, questionamentos à parte, temos sim, os feromônios, substâncias que silenciosamente influem e até decidem sobre nossas escolhas sexuais e de afetividade. Eles estão presentes no bebê recém-nascido e na mãe, que graças a eles despertam afinidade imediata um pelo outro. Eles estão no gesto da mulher arrumar os cabelos em frente ao pretendente, expondo as axilas e com isto liberando milhares de moléculas de feromônios em direção ao desavisado rapaz.
Podem alguns argumentar que os cheiros “humanos” não são tão atraentes como outrora. Mas eu venho veementemente discordar! Apesar de a gente tentar mascarar todos os dias os nossos cheiros mais primitivos usando perfumes, sabonetes, desodorantes, etc., vale lembrar que um perfume, para ter sucesso, não pode conter na formulação apenas cheirinhos de flores, frutinhas, madeiras. Perfumes assim formulados tornaram-se verdadeiros fracassos de público. Para ser realmente bom o perfume deve conter um componente de cheiro, digamos “fétido”, com o qual nos identificamos e ao qual milhares de anos evolutivos não foram capazes de apagar. Entram aí o papel dos almíscares, substâncias de odor acre e pungente que têm, além do primordial papel de fixadores, a função de acrescentar (obviamente em quantidades ínfimas) os componentes mal cheirosos à fórmula dos perfumes. Até muito pouco tempo eram utilizados para este fim glândulas de animais como cervos e de algumas espécies de gatos. Com o risco iminente de extinção, começou-se a desenvolver sinteticamente estas substâncias. Os almíscares fazem este elo entre as preferências dos nossos ancestrais e as consumidoras de Chanel, Giorgio Armani, Bulgari...
Hoje a indústria utiliza sabiamente os conceitos de aromaterapia para vender mais e mais produtos. De calcinhas a bonecas, de desinfetante a medicamentos, tudo tem que vir com cheiro, e se possível com a indicação terapêutica: calmante, energizante, afrodisíaco.
Se quisermos dar uma intensidade maior às nossas experiências, um bom caminho é começar a prestar atenção aos cheiros que nos cercam. E ir formando um arquivo olfativo no cérebro. Ah, e por falar nisso, ganhou um ponto quem identificou que o produto que produziu todos aqueles comentários olfativos do início do post foi um vinho! Uma bebida perfeita para quem, como eu, ama os aromas.
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Tudo isto porque eu queria saber se já saiu em DVD o filme: O Perfume A história de um assassino, baseado no livro de Patrick Suskind.
O livro me fascinou tanto que, mesmo depois de vinte anos ainda me lembro da história e do nome do personagem principal, Grenouille.
Não pude ver o filme, mais minha curiosidade é grande, já que a fama de história "infilmável" fez com que só recentemente fosse pras telonas. O livro foi tão bem escrito que dá pra gente quase sentir os cheiros da Paris do séc. XVIII.
08 março 2007
Mulher Orquídea

Isaura e eu trabalhamos na mesma empresa, mas em departamentos diferentes, por isto não a vejo sempre. Quando passo por ela nos corredores está sempre com um sorriso pra distribuir. Resolvi apelidá-la de Orquídea do Cerrado, por causa da sua história. Isaura é pequena, delicada e forte ao mesmo tempo. Assim como a orquídea do cerrado, ela capta os poucos recursos de que dispõe e, milagrosamente os transforma em belas florezinhas. Quem vê seu sorriso franco não pode vislumbrar a guerreira que, todos os dias vence a batalha de prover a casa, criar dois filhos dando-lhes amor e educação, tentar entender as dificuldades pelas quais passa o marido que há anos não tem um emprego fixo, lidar com o problema de saúde da filha com otimismo. Às vezes nota-se o olhar preocupado, mas, entra dia e sai dia, seu sorriso está sempre ali. Sabe que a vida poderia ser melhor, mas pega o que lhe foi dado e faz disso o seu MELHOR. Sem reclamar, sem se sentir injustiçada pela vida.
Nesse cerrado imenso que é Goiás, há muitas orquídeas que crescem na bifurcação dos galhos retorcidos e secos das suas árvores. Poucas pessoas sabem disto. Menos ainda são capazes de notar sua presença. Mas para quem conhece estas flores é impossível não parar para admirá-las.
Indiferente a isto elas vicejam, pequenas, coloridas, delicadas, fazendo do sol escaldante e da água que se armazena nas rachaduras do caule, seu alimento.
Este post integra a blogagem coletiva para o Dia Internacional da Mulher, promovido pela Denise.
A foto é de um legítimo exemplar de orquídea do cerrado goiano (não sei o nome científico), este fica no jardim da minha casa.
04 março 2007
Pensamento da Semana

Em meio a tantos novos gurus da auto-ajuda que brotam a cada segundo nas livrarias, eu prefiro uma e mil vezes ler Marco Aurélio. O seu livro “Meditações” não foi escrito para tornar-se público. Estes pensamentos foram encontrados sob o título “A mim mesmo”, denotando seu caráter íntimo. Não dá pra sintetizar em um parágrafo a grande sabedoria contida em suas palavras, que eram, antes de tudo, as palavras de um estóico, e por isto mesmo ele prezava, a despeito de toda a riqueza e poder que possuía, valores como a inteligência, a verdade e a justiça.
Pra quem já vislumbra a chegada da segunda-feira, e de mais uma semana que começa, deixo um pensamento dele:
“Dize para si mesmo, ao amanhecer: _ Sei que vou encontrar um indiscreto, um ingrato, um grosseiro, um velhaco, um invejoso, um intolerante. Porém eu, aprendi que o bem verdadeiro é o que é honesto e o mal verdadeiro está no vergonhoso; eu que conheço a natureza de quem comete a falta, que sei que é meu irmão não pelo sangue ou pelo nascimento, mas pela inteligência e pela origem divina, não posso considerar-me ofendido por eles, já que nada do que faço poderia envergonhar-me. Com efeito, ninguém poderia despojar minha alma da honradez; é impossível que chegue a aborrecer-me com um irmão e que possa odiá-lo. Ambos fomos feitos para trabalharmos de comum acordo, com os pés, as mãos, as pálpebras, as duas fileiras de dentes superior e inferior. Atuaríamos, pois, contra a natureza sendo inimigos, manifestando desgosto e aversão para com estes desditados.”
25 fevereiro 2007
Conversa de Salão
Toda mulher freqüenta (ou já freqüentou algum dia) um salão de beleza de bairro, isto é, aquele salãozinho pequeno, quase cem por cento das vezes instalado contíguo à casa da cabeleireira. Esta, geralmente faz de tudo: depila, corta, escova, faz tintura e lhe serve aquele cafezinho... Nestes salões quase sempre a dona trabalha só, ou no máximo tem mais uma ajudante, geralmente uma manicure.
Estes salões são ótimos para quem, como eu, nunca se lembra de ligar com antecedência pra marcar horário, ou melhor dizendo, tem o costume de ligar querendo um horário “pra já!”.
Desde minha última mudança, há cerca de dois anos, freqüento o Salão da Edith, que é exatamente como eu descrevi. De quebra ela é simpática e tem um ótimo humor. Lá uma coisa foge à regra dos salões de bairro: é que ela está sempre inovando. Só lá você encontra uma máquina para lixar pés, ou um método que não utiliza água para amolecer as cutículas, ou um creme de última geração para os cabelos. Porém, esta característica inovadora da dona do salão infelizmente quase sempre é deixada num cantinho, já que a “massa” freqüentadora do salão é composta por senhoras mais velhas e comadres, que gostam de tudo do modo mais tradicional.
Certo dia, precisando de mais um atendimento de urgência, liguei para a Edith e ouvi não sua voz alegre, mas uma mensagem dizendo que o telefone estava temporariamente bloqueado. Assim, passou-se mais de um mês e sempre que eu ligava, ouvia a mesma mensagem. Já tinha me resignado a não ter mais notícias dela quando, passando pela rua do salão, vi a porta aberta e a luz acesa. Edith me recebeu com o costumeiro sorriso e um abraço.
“_Edith, onde é que você estava, já faz mais de um mês...”
“_Ah, minha filha, eu estava pra Europa, passeando. Sabe que meu embarque saiu até na coluna social do O Popular!”
(este é o principal jornal diário de todo o estado de Goiás)
Comecei a rir, lembrando-me que havia descoberto, por acaso, que seu filho é o cabeleireiro mais famoso e fashion do estado. Ele é responsável pelos cabelos e make ups das modelos, atrizes e socialites. Ano passado saiu na Veja - os melhores de Goiás – como o melhor cabeleireiro do estado.
“_Isto é que dá ter filho famoso!”
E aí fomos pelo resto da tarde pondo as fofocas em dia, enquanto ela dava um jeitinho no meu cabelo. Entre vários casos, Edith contou-me que seu filho havia comprado oito mil euros só em maquiagem. Fiquei imaginando se em toda minha vida já teria comprado mais que 500 reais com essas coisas.
E assim tudo voltou ao normal no salãozinho da Edith. Quem passa pela rua não é capaz de imaginar que aquele salão modesto trabalha com as últimas tendências européias em cortes, penteados, etc. Mas isto, é claro, só para as clientes mais ousadas.
20 fevereiro 2007
Campanha Child Friendly
Este comercial faz parte de uma campanha da organização Childfriendly, da Austrália. Seu objetivo é despertar nos adultos a grande responsabilidade que é (ou pelo menos deveria ser) EDUCAR CRIANÇAS.
Eu achei que este vídeo conseguiu, apenas com imagens, acertar no centro do alvo.
Tenho visto muitos exemplos de homens e mulheres que nunca entenderam o significado das palavras "ser pai" apesar de terem um, dois ou mais filhos. Eu sou da opinião que há dois tipos de pessoas, neste contexto: as que nasceram para serem pais e as que não tem a menor vocação para isso. Eu, por exemplo, sempre quis ser mãe. Me dedico ao trabalho durante 11 horas do meu dia, de segunda a sexta-feira. Posso chegar em casa cansada, mas nunca deixo de passar pelo menos duas horas realizando atividades com meu filho, como brincar, desenhar, ou mesmo levá-lo para a cozinha para que ele me ajude a fazer alguma comidinha. Dou banho, dou janta e deito com ele quase todos os dias para contar uma história e fazê-lo dormir. Por conta disto, deixo muitas outras coisas pra segundo plano. Não digo que isto é sempre um prazer. Há aqueles dias em que a gente chega cansada, ou louca pra assistir um programa na tv, ou doida pra terminar de ler aquele livro, ou pra ligar o pc. Mas eu assumi um compromisso com meu filho assim que decidi que iria tê-lo. E não vou abandonar este DEVER para satisfazer as vontadezinhas da minha personalidade. Devo dizer também que este DEVER não causa peso algum.
Ser mãe (e pai) é uma das chances que temos de crescer como SERES HUMANOS. Explico: é uma experiência que nos ensina a deixar de sentir prazer apenas nas coisas que alimentam nosso próprio ego e passar a ter prazer no ato de servir e cuidar de outro ser. A gente se acostuma àquela vidinha de trabalhar e satisfazer nossos desejos, como um vestido novo, um filme, uma comida, uma conquista e, de repente, temos que largar mão de tudo isto , deixar tudo para segundo plano. Tem uma vida que precisa ser cuidada. Tem uma vida que depende de você. E aí acontece esta experiência de doação, de generosidade, de crescimento. Se ela for sentida por você intensamente, vai ter o poder de mudar sua vida para sempre, porque passa a fazer parte de você. Querer o bem de seu filho mais que o seu próprio é subir um degrauzinho no sentido de evoluirmos como pessoas. Mas ainda é um sentimento egoísta. E o incrível é que tem gente que nem disto é capaz.
Não poderia terminar este post sem dizer que há muitas pessoas que não precisaram viver a experiência de ser pais para sentir a vontade e agir para o bem de outras pessoas. Estas, realmente, estão bons degraus à frente! E há, também, aquelas pessoas que após serem pais, passaram a enxergar todo um mundo precisando de ajuda e passaram a se moverem neste sentido.
É para todas estas pessoas, como a Denise, o Daniel Azevedo, a Eliene, e minha mãe "D. Lourdinha", que eu dedico este post.
17 fevereiro 2007
Brasil made in USA
Longe de querer criticar o nível cultural geral de um povo, mas às vezes fico chocada com umas histórias que demonstram o total desconhecimento do americano em relação ao Brasil.
Tanto meu pai (nos anos 60) quanto meu irmão (agora, já no séc. XXI) que moraram lá na terra do Tio Sam, têm suas histórias pra contar. Há aqueles americanos que afirmam que o Brasil está localizado na África, tem um outro que desenhou o Brasil menor que o Alaska. Isto sem contar os que acreditam que nosso país é uma grande floresta amazônica do Oiapoque ao Chuí, com algumas mulatas enfeitando a paisagem e se requebrando em fantasias de paetês.
O melhor caso relacionado a este assunto que eu já ouvi aconteceu com um amigo meu lá na Califórnia...
Fred mudou-se há uns 2 anos para Sacramento. Ele é um sujeito “pinta”, como se diz, além de muito comunicativo e interessante. Logo fez uma turma de amigos, e todos saíam sempre na night (apesar da noite acabar bem cedo por lá). Uma noite, em mais uma festa com a turma, conheceu uma americana muito bonita, que se encheu de sorrisos assim que ficou sabendo que o Fred era brasileiro. Dizia ela que também se considerava brasileira, porque tinha ascendência brasileira, e que amava tudo que dizia respeito ao Brasil. Na verdade, sua avó paterna havia nascido no Brasil e vivido aqui até os 3 anos de idade. Assim, a moça passou o resto da noite falando sobre o Brasil.
Naquela época Fred passava alguns meses lá e outros tantos aqui. Naquela noite ele estava justamente com passagem marcada para, em poucos dias, retornar ao Brasil.
Depois de uns três meses aqui, Fred voltou a Sacramento e à turma das baladas. Nicole ( a americana auto-entitulada Brasileira) o recebeu com um forte abraço de “conterrânea” e anunciou que tinha uma grande surpresa para mostrá-lo. E aí, “dá-lhe” mais um discurso sobre o Brasil, seu orgulho de ser brasileira, e sua vontade de ter algo que a identificasse com a nossa terrinha. Aí contou que teve a brilhante idéia de fazer uma tatuagem que homenageasse o Brasil, e ao mesmo tempo remetesse à sua “origem” brasileira. Então, procurou vários tatuadores famosos de Sac., e ficaram semanas discutindo e garimpando desenhos e símbolos que pudessem ser usados. Por fim, após muitas reuniões e cinco dolorosas ink sessions, havia concluído o trabalho e estava ali, radiante e ansiosa para mostrá-lo. Nicole virou-se e abaixou uns 8 cm seu jeans para que Fred pudesse apreciar a bela obra.
Imaginem sua cara de desapontamento quando ouviu, ao invés de um “uau, very good!” e palmas, uma sonora gargalhada que Fred não conseguiu segurar ao se deparar com a tatoo que tinha uma moldura de flores com a inscrição, em letras garrafais (que ocupava toda a parte superior do quadril):PORTUGUESE GIRL
É, como diria o Zé Simão, nóis sofre mais nóis goza!
"Dedico este post ao Fred. Estamos com saudades!"
11 fevereiro 2007
O Beijo

Um turbilhão de emoções tomava conta da garota naquele instante. Sentia seu coração acelerado e uma excitação cada vez maior fazia com que se sentisse mergulhada num sonho, num transe...
Tudo isto porque estava, finalmente, tornando realidade aquele velho desejo. O dia chegara, aliás, um fim de tarde, com o sol já baixo e o frio do inverno intensificando-se com o chegar da noite.
Desde seus quatorze anos sabia que este dia chegaria. Agora estava ali, frente a frente com O BEIJO, e ela pensava em quem o artista havia se inspirado para compô-la, quem foram os modelos e se na realidade viveram uma paixão tão intensa quanto aquela que emanava dos dois belos amantes. Na verdade, ela nunca quisera conhecer a verdadeira história sobre aquela escultura. Nos livros e biografias que lera sobre Rodin sempre pulou, propositalmente, as páginas que falavam sobre esta obra, a fim de preservar sua magia, seu mistério.
Foi também por este motivo que abdicou da idéia de levar para casa uma réplica de 25 cm de altura, vendida na store do museu, o que também fazia parte inicialmente dos seus planos. Mas refletiu melhor e concluiu, sabiamente, que aquela sensação seria um tesouro guardado, como tantos outros em sua mente, e que ela não iria transformá-lo num objeto banal, a ser posto numa estante ou num centro de mesa. Ela decidiu preservá-lo da banalidade do dia-a-dia.
Anos depois a garota voltou a Paris uma e mais vezes, mas em nenhuma delas foi ao Museu Rodin. Apesar disto, a imagem de Paolo e Francesca continuam tão nítidas quanto a emoção daquela tarde de janeiro.
"Este post é dedicado à Lili e à profissão que escolheu"
02 fevereiro 2007
Sinceridade infantil
Minha mãe veio de Minas para servir de “Mãe” para meu filho, o Davi, na sua primeira semana de aula, já que a mãe verdadeira não pode se dar a um luxo desses por causa do trabalho.
Já no terceiro dia o moleque pegou uma faringite forte, que me fez passar toda a noite em claro pois a cada quinze minutos ele acordava chorando. O médico prescreveu um antibiótico, que deveria ser administrado o mais rapidamente possível.
Estava saindo para o trabalho quando o motoboy da farmácia estacionou a moto na porta de casa. Lembrei-me da criaturinha mansa que se transforma em uma fera indomável na hora de tomar remédio, e lembrei-me de todas as técnicas falíveis e infalíveis já experimentadas para fazê-lo aceitar um medicamento. Soltei um “Seja o que Deus quiser” e segui, apressada. Não deu outra: quando liguei do trabalho minha mãe disse que os dois estavam melados da cabeça aos pés, e que nas várias tentativas de fazê-lo beber o antibiótico, tinha quase se esgotado o conteúdo do frasco. E que ele havia se debatido, cuspido, feito vômito, e que não teve jeito mesmo.
Eu liguei para o Gustavo, que estava ainda perto de casa, e pedi a ele que passasse em casa para resolver a situação. Ele chegou em casa, chamou nosso filho e lhe explicou, calmamente, que era ele mesmo quem tinha ajudado a fazer aquele medicamento (eu e ele trabalhamos na indústria farmacêutica), e que o remédio servia para matar os bichinhos que estavam machucando a sua garganta e blá, blá, blá, blá...
Quando o pai ofereceu o remédio, ele abriu a boquinha prontamente e bebeu tudo em uma golada. A avó, que assistia a tudo de camarote, puxou o netinho para a sala e perguntou: “_Ô Davi, por quê é que comigo você cuspiu, deu birra e derramou o remédio e com seu pai você bebeu tudinho todo obediente?” E ele, sério e compenetrado: “_ Vovó, sabe o que é?” (Pausa) “_ É que de você eu gosto um pouco. Mas do meu pai, eu gosto muito, muito, muito!”
Fiquei pensando como seria o mundo se nós permanecêssemos com esta sinceridade dos primeiros anos.
28 janeiro 2007
Senhoras
Eu, de férias em uma cidade histórica de Minas, tomava um café solitário em uma tarde de montanhas no horizonte, quando...
Três senhoras tomavam chá em uma bonita varanda. Uma delas, muito elegante e de modos delicados, trajava um vestido de seda estampado, muito bem cortado, e calçava sapatos scarpins. A segunda tinha um sorriso largo e olhinhos pequenos e muito ágeis, nos quais podíamos enxergar um pouco da menina levada e da moça impetuosa que devem ter, há tempos, possuído aquele olhar. A terceira parecia ser a mais velha das três. O que primeiro se destacava em sua aparência era seu cabelo muito branco e macio, que dava vontade de tocar.
Fiquei imaginando o que conversavam alegremente estas três senhoras, e fui ficando com uma imensa vontade de poder escutá-las, principalmente porque a cada relato de uma delas, as três caíam em uma gargalhada uníssona.
Quando dei por mim, havia chamado o garçom e, inventando uma desculpa, pedi que mudasse de mesa para uma mais próxima à janela, pois “gostaria de ficar observando a paisagem”. Minha curiosidade tinha sido maior que meus princípios de boa educação, e eu consegui me sentar bem pertinho, de costas para elas e com meus ouvidos bem abertos. Na minha nova condição de ouvinte indiscreta, pude perceber que, com muito bom humor, elas contavam os últimos casos de “lapsos” que cada uma delas havia passado. A senhora dos olhinhos pequenos, que eu batizei de Senhora M., foi a primeira que eu pude ouvir:
“Outro dia, peguei um ônibus no centro para ir visitar minha filha. Quando dei por mim, estava indo para o lado oposto ao qual eu desejava. Com certeza, havia entrado no ônibus errado. Então fui até o motorista e pedi que me deixasse descer, pois ainda daria tempo de voltar ao ponto e pegar o ônibus certo. Mas ele, impassível, disse que só pararia no próximo ponto, que ficava mais ou menos a umas dez quadras de distância. Todos lá em casa andam reclamando que tenho falado em um tom altíssimo. Eu percebi que todos no ônibus tinham ouvido meu pedido quando um negão de uns dois metros de altura e quase da largura do corredor levantou-se do último banco e bateu pesadamente a mão larga nas costas do motorista: _ Escuta aqui, tu vai pará o ônibus pra vovó descer agora, ou então vai ter que acertar as contas é comigo!
O motorista freou na mesmo hora. Eu tremia de medo, mas me senti a donzela daqueles filmes antigos sendo salva pelo herói. Agradeci o negão e saí toda faceira, cabecinha empinada e olhar leve...”
A senhora de cabelo branco interrompeu:
“Até que um pouco de surdez às vezes ajuda, né?” E então iniciou seu relato: “Meu caso em um ônibus foi ainda mais tragicômico! No fim do ano passado, fui fazer compras de natal com minha filha no centro da cidade. O ônibus começou a se encher de gente ainda em nosso bairro, e eu consegui um lugar na frente, enquanto minha filha foi sentar-se lá no fundo, quase na porta de saída. Quando dei por mim, já estávamos quase no ponto onde deveríamos descer. Tentei alcançar a campainha, mas era muito alta pra mim. Então gritei para minha filha lá do outro lado: _ Ana Maria, ôõô Ana Maria, aperta a descarga que nós já vamos descer! O ônibus inteiro caiu na risada, e quando a porta se abriu, eu me senti o próprio cocô descendo pela água da privada!
Ficamos ali, eu e minha filha, apoiando uma na outra de tanto rir, até que conseguimos um pouco de tranqüilidade para nos movermos.”
A última a falar foi aquela mais chique, que eu apelidei de Senhora L: “Minhas queridas, eu só vou contar minha história porque, depois destes dois relatos, eu não irei me sentir a mais caduca das três! Quando eu morava naquela pequena cidade do interior, costumava pegar um ônibus para visitar parentes na capital. A rodoviária da cidade compunha-se apenas de uma pista cercada por duas calçadas. De um lado era o embarque e do outro o desembarque. Meu marido foi até lá me acompanhar até que o ônibus embarcasse. Eu estava ansiosa por ter que viajar sozinha, eu não gosto! Sempre viajei com meu marido. Esperei do lado de fora até o último segundo, conversando com uma parenta que por lá encontrei. O motorista, parado de fora do ônibus e ao lado do meu marido, fez sinal para que os últimos passageiros entrassem, mas eu era a única que ainda estava fora do ônibus. Na pressa de entrar troquei as bolas, entreguei a passagem para meu marido e dei um abraço apertado no motorista! Só me dei conta da troca quando já tinha estalado um beijo na bochecha dele! E pra piorar a situação, a minha cadeira era a de n° 3, a primeira do lado contrário ao motorista. As quatro horas de viagem pareciam que não iam terminar nunca mais. Além das risadinhas dos passageiros que tinham presenciado a cena, o motorista passou a metade do trajeto me encarando pelo retrovisor!”
Neste momento eu, que já estava suando para conter meu riso, não agüentei mais e debrucei-me sobre a mesa, de tanto rir. Tive que pedir desculpas às senhoras, que acabaram por me convidar para sentar-me com elas, o que eu recusei mais por educação e menos por vontade.
Naquele dia, aprendi uma regra importante para bem viver: NUNCA PERDER A CAPACIDADE DE RIR DE SI MESMA!
Quem, nesta vida, é totalmente livre?
"Já quebrei meus grilhões, dirás talvez. Também o cão, com grande esforço arranca-se da cadeia e foge. Mas, preso à coleira, vai arrastando um bom pedaço da corrente."
PÉRSIO, Sat. V, 158
24 janeiro 2007
Modernidade escravizante
Duas amigas conversam durante o trabalho. Uma é Sara, 25 anos, muito religiosa e tradicional, casada desde os 16 anos com Antônio. A outra é Malu, 24 anos, que tem suas próprias crenças, é solteira e se diz liberal.
_ Sara, ontem eu saí com aquele carinha que eu estava suuper a fim...
_ Qual, o Beto?
_ Não, amiga, o Paulinho, aquele loiro lindo!
_ Garota, cruzes! Você não tava saindo com aquele moreno?
_ É, o Saulo. Mas não deu certo, sabe? Eu ainda estou procurando o príncipe encantado, minha alma gêmea, aquele que nasceu só pra mim! Ei, Sara, me conta como você achou o seu...
_ Foi facil, amiga. Os pais do Antônio moravam na mesma rua e a gente frequentava a mesma igreja desde criança. Um dia ele me pediu em namoro e 8 meses depois nos casamos.
(Malu rindo)
_ Mas como você tinha certeza que ele era o "homem da sua vida"? Você já tinha namorado muitos antes dele?
_ Não, na verdade nenhum.
_ Mas um "rala e rola" vocês tiveram, é lógico que você experimentou antes, como poderia ter certeza?
_ Que é isso, eu me casei Virgenzinha da Silva! E sempre soube que era com ele que eu queria passar toda minha vida. E não me decepcionei nadinha, adoro rolar com ele mesmo depois de quase 10 anos casada.
_ Como pode?!? Isso nunca aconteceu comigo. Será que é azar? Praga? Mau olhado? Já saí com mais de trinta caras e nunca senti esta certeza com nenhum deles.
(Agora Sara é quem ri)
_ Não sei, mas foi assim que aconteceu.
_ Olha, Sara, você tem que me ajudar! Diga, você nunca teve vontade de experimentar outro, só pra ver como é que é?
_ Vontade eu posso até ter, mas vale a pena não... meu casamento é bom e eu tenho muito prazer com ele!
(Malu quase chorando)
_ Ai, o que é que eu faço? Nem gozar eu tô conseguindo mais!
_ Olha amiga, eu sou uma mulher simples, de hábitos meio antigos, sabe? Eu sempre quis ter um marido que fosse bom, só isto. E você, afinal, o que espera de um companheiro?
_ Acho que nada demais. Apenas o que uma mulher moderna deseja... Sabe, o que eu leio nas revistas: um homem jovem, com um ótimo emprego, estabilizado, carinhoso, fiel, romântico, que goste de música eletrônica e que cozinhe pra mim.
_ Pobrezinha! Isto não é um homem, é uma máquina que ainda não inventaram! Já pensou no trabalho pra manter uma máquina destas? Agora entendo porque você não tá gozando... Tô achando que esta sua modernidade toda só tá te causando angústia...
_ Sara, sabe que você tem razão! Vou queimar todos os meus livros de auto-ajuda e revistas, e vou fundar uma nova seita, a da "Descomplicação"!



